Viúvas indianas ou Mangliks -maldição do amor

Viuvez. O que me levou a pensar neste tema tão diferente? Há alguns dias conversando com uma amiga sobre o problema das viúvas na Índia ela me disse que gostaria de saber mais sobre esse costume antigo e terrível e eu lhe prometi que iria escrever sobre esse assunto.

A viuvez em si já é uma tristeza, mas na Índia ela é temida não somente pelo fato da mulher ficar sozinha e abandonada, mas também pelo seu afastamento da sociedade que acredita que, além de ser um encargo financeiro, as viúvas e até mesmo sua sombra  trazem má sorte. Uma viúva pode ser considerada maldita, não podendo estar presente em rituais e celebrações que integram a vida na Índia, como um casamento, ou comemoração de nascimento. Existem relatos de viúvas, que são espancadas em seus vilarejos porque alguém morreu, pois para eles, a presença da viúva no vilarejo foi a causa da morte daquela pessoa.

Dentro de tais círculos, as viúvas, tanto jovens quanto idosas, são evitadas e forçadas a deixar sua casa. Seus braceletes são quebrados, o sindor (linha vermelha que identifica a mulher casada) é retirado e elas passam a usar sáris brancos em demonstração de luto para o resto da vida. Em casos mais tradicionais e radicais suas cabeças são raspadas.

Essas viúvas, milhares de desabrigadas, se reúnem nas cidades sagradas de Vrindavan ou Varanasi para viver em ashrams, aguardando sua vez de morrer  para alcançarem a salvação.

Infelizmente a vida nos ashrams dessas cidades não é exatamente um mar de rosas para as mulheres solitárias e abandonadas. Na verdade, algumas delas são tão pobres que saem deles e vão para as ruas para mendigar sua comida. As que não ficam nos abrigos recebem apenas uma pequena cota de alimentos por dia e vivem na mais pobre das condições. Viúvas jovens demais enfrentam uma ameaça à sua segurança devido ao abuso sexual e tráfico de seres humanos.

Sem um homem ao seu lado, uma mulher não tem respeito na sociedade indiana. Isso é parte da cultura patriarcal.

No passado existia o “sati” ou “sutee”, prática centenária hindu que levava as mulheres “honradas” a se suicidarem depois da morte dos maridos. Esse ritual teve origem no sacrifício de Sati, a primeira esposa do deus Shiva, que se matou, numa demonstração de fidelidade ao amado que estava sendo humilhado.

Normalmente vestidas com as roupas de casamento, elas se atiravam nas piras funerárias dos mesmos.  Esse ritual foi banido em 1829, mas algumas mulheres da zona rural ainda o praticam. Antes da proibição, havia centenas de ocorrências de sati por ano, principalmente no Rajastão.

Embora para a nossa cultura seja muito difícil entender esses costumes, na tradição indiana a mulher é a metade do marido e quando eles se casam tornam-se apenas um só, por isso elas deixam de existir quando eles morrem. Além disso, fica caracterizado que elas não trouxeram sorte para a família.

A família do marido morto usa de todas as artimanhas para tomar as propriedades deixadas por ele sem assumir a responsabilidade de sustentar sua viúva e roubar seus dotes. Embora a lei reconheça o direito delas à herança, na prática isso acontece muito raramente.

Há poucos anos assisti a um filme muito interessante chamado “Water” – “Às Margens do Rio Sagrado”, cujo tema é a viuvez.

O filme se passa em 1938 na Índia Colonial, onde os poderosos (britânicos e indianos) veem a ascensão de Mahatma Gandhi, com suas ideias de liberdade e de mudança das tradições arcaicas às quais os indianos ainda se agarravam. As viúvas já não eram forçadas a se queimar numa fogueira, com a morte do marido, mas ainda tinham que pagar, vivendo em total ostracismo e miséria, por toda vida.

Tudo começa com a morte do marido de Chuyia, uma menininha esperta de oito anos de idade, que nem entende que é casada. Copiando o mito de que o deus Shiva se casou com Parvati quando ela tinha somente oito anos, garotas são casadas com a mesma idade sendo que ficavam com seus pais até chegarem à puberdade. Era comum essas meninas ficarem viúvas ainda crianças e enfrentarem as restrições impostas pela sociedade. Se os parentes dos maridos não as quisessem, elas tinham que ficar na casa dos pais fazendo os serviços domésticos, ou poderiam ser enviadas para as “cidades de viúvas”.

Ao se tornar “viúva”, Chuyia tem suas pulseiras quebradas, seu cabelo raspado, perde todas suas roupas e é vestida com um sári branco, que será sua única veste, para diferenciá-la, afinal, ela agora é uma pária, “impura” e não pode ter contato com outras mulheres e crianças.

Os pais deixam Chuyia numa casa de viúvas hindu, onde deve viver o resto dos seus dias em penitência. Não vou contar o resto do filme, para aguçar a sua curiosidade mas garanto que é um filme intenso, lírico e belíssimo e não deve deixar de ser visto.

Muito interessante também é a história da filmagem. “Water” ia ser filmado inicialmente na cidade de Benares, na Índia, mas teve de ser interrompido quando 2000 fundamentalistas hindus invadiram o local de filmagem e atearam fogo aos cenários. A diretora Deepa Mehta e as atrizes Shabana Azmi e Nandita Das foram ameaçadas de morte e o projeto ficou engavetado por cinco anos. Os responsáveis pelo atentado foram os membros do Shiv Sena, um dos grupos hindus fundamentalistas  mais poderoso.

Após cinco anos Deepa Mehta retomou a filmagem, mas desta vez em Sri Lanka. A menina de oito que fez um dos papéis principais veio de um vilarejo e não falava nem híndi nem inglês. Ela teve de aprender todas as falas foneticamente. Esse filme foi banido na Índia.

Muitos costumes estão se transformando e sumindo, outros aparecendo, mas ainda temos muito que aprender com outros povos. Observar e aceitar cada um com as suas características faz parte da evolução do ser humano.

E não tem como se falar da Índia sem mencionar os dizeres maravilhosos de Mahatma Gandhi. É com ele que encerramos nosso artigo de hoje:

 “Quase tudo que fazemos parece insignificante, mas é muito importante que façamos. Você precisa ser a mudança que você deseja ver no mundo.”

 

Maria Helena Magalhães Sarmento Afonso

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